Postado em 16 de Dezembro de 2020 às 09h08

Infecção por príons

Meio Ambiente (82)

Resíduos biológicos contaminados exigem tratamento específico e disposição final adequada

Príons são estruturas proteicas que, quando alteradas de modo anormal, tornam-se agentes causadores de doenças. Os príons são muito menores do que os vírus e diferentes destes, das bactérias e de todas as células vivas.

Por não conter material genético, desperta curiosidade da comunidade científica, assim como o fato de equipamentos contaminados por príons permanecerem com altíssimo potencial de infectividade, por longos períodos, mesmo depois de processos de esterilização.

Na década de 1960, dois pesquisadores desenvolveram a hipótese de que as encefalopatias espongiformes transmissíveis eram causadas por um agente infeccioso constituído unicamente por proteína. Stanlley Prusiner cunhou o termo príon nos anos 1980.

Doenças causadas por príons foram observadas primeiramente em ovelhas. No início daquela década, produtos derivados de animais (ovelha e gado) infectados foram introduzidos na alimentação do gado, principalmente no Reino Unido. Centenas de milhares de bovinos desenvolveram encefalopatia espongiforme (EEB), popularmente conhecida como doença-da-vaca-louca, que afetava o sistema nervoso dos bovinos.

Apesar da exposição, poucos seres humanos que se alimentaram da carne de gado contaminada desenvolveram doença priônica, relata Pierluigi Gambetti, pesquisador da Faculdade de Medicina da Case Western Reserve University (EUA), especialista no assunto.

Maria Cristina Nonato, pesquisadora da Universidade de São Paulo (USP), destaca que os príons, na sua forma infectiva, podem ser encontrados em solos onde existe gado ou ovelhas doentes. A contaminação dos solos é sim uma forma já observada e bem caracterizada de transmissão dentro desses sistemas.

Encefalopatias espongiformes

São raras as doenças causadas por príons em seres humanos, contudo são degenerativas, progressivas, fatais e, atualmente, não tratáveis, acometendo sobretudo o sistema nervoso central.

O Conselho Nacional do Meio Ambiente (CONAMA) caracteriza príon como estrutura proteica alterada, relacionada como agente etiológico (causador de doenças) das diversas formas de encefalite espongiforme, como a Doença de Creutzfeldt-Jakob (CJD).

Telma Abdalla, pesquisadora da Fiocruz, em artigo científico, relata que “as encefalopatias espongiformes transmissíveis (EET) são doenças neurodegenerativas, causadas por um agente infeccioso desprovido de material genético, composto por elementos proteicos, altamente estáveis e resistentes aos processos de descontaminação utilizados rotineiramente nos serviços de saúde e assim representam riscos à saúde pública.”

As enfermidades Creutzfeldt-Jakob (CJD) e Gerstmann-Sträussler-Scheinker (GSSD) são doenças priônicas, nas quais a demência é uma parte importante do quadro clínico. Antes da identificação dos príons, pensava-se que as encefalopatias espongiformes eram causadas por vírus. A Doença de Creutzfeldt-Jakob (CJD) tem como causas: mutações eventuais (casos esporádicos); mutações prévias que passam a ser transmitidas geneticamente (familiar); iatrogênica – infecção por material cirúrgico contaminado, transplante de dura-máter e córnea, utilização de hormônio de crescimento cadavérico).

Em 2005, o Ministério da Saúde obrigou o sistema de saúde a notificar casos de Doença de Creutzfeldt-Jakob. “As doenças priônicas têm períodos de incubação longos, e como não são doenças clinicamente identificáveis, a propagação das infecções por príons em seres humanos é um desafio à saúde pública. Deve-se ter em conta que o potencial infeccioso dos diferentes tecidos e órgãos dos pacientes com EET varia desde muito alto até muito baixo ou indetectável. Dessa forma, os príons são encontrados com maior frequência e concentração no sistema nervoso central, especificamente cérebro e medula espinhal, e retina/nervo ótico. Como são agentes cujo período de incubação é muito longo, o estudo retrospectivo de determinação da transmissão ocupacional da doença é dificultado. Apesar disso, existem estudos sobre os relatos de casos da doença de Creutzfeldt-Jakob esporádica entre profissionais da saúde”, relata Telma Abdalla, da Fiocruz.

Infectividade em humanos

Doenças priônicas transmitidas de maneira infecciosa são ainda mais raras. Elas podem ocorrer:

- por meio de canibalismo (como na Kuru);
- de animal para pessoa: via ingestão de carne bovina contaminada (como na CJD);
- de pessoa para pessoa: forma iatrogênica.

Segundo a Divisão de Vigilância Epidemiológica de Santa Catarina (DIVE), a forma iatrogênica de transmissão da Doença de Creutzfeldt-Jakob é ocasionada pela utilização de instrumentos cirúrgicos contaminados, durante procedimentos neurocirúrgicos, eletrodos cerebrais profundos, transplante de órgãos e tecidos.

Resistência

Cristina Nonato cita relato científico segundo o qual um “instrumento cirúrgico utilizado em paciente com doença priônica, mesmo depois de higienizado, foi usado em dois pacientes e ambos adoeceram. Dois anos mais tarde, o mesmo instrumento foi testado em chipanzé e o animal também adoeceu, demonstrando o poder de infectividade e resistência dos príons.”

“Os príons facilmente se ligam a plástico ou metal sem perder a infectividade e não são eliminados por métodos tradicionais de descontaminação. São resistentes à alta temperatura e radiação”, ressalta Maria Cristina Nonato.

Pierluigi Gambetti, pesquisador norte-americano, confirma que os príons sobrevivem às técnicas de antissepsia padrão, como autoclavagem, e representam um risco para outros pacientes e cirurgiões, enfermeiros e técnicos.

Gambetti ressalta que a transmissão pode ser prevenida tomando precauções ao manipular tecidos infectados e usando técnicas apropriadas para limpar os instrumentos contaminados. Recomenda-se a autoclavagem a vapor a 132°C durante 1 hora e a imersão em hidróxido de sódio 1 N (normal) ou 10% de solução de hipoclorito de sódio durante 1 hora.

Seguindo as diretrizes da Organização Mundial da Saúde para o controle da encefalopatia espongiforme transmissível, a Anvisa (RDC 222/2018) classifica órgãos, tecidos e fluidos orgânicos de alta infectividade para príons, de casos suspeitos ou confirmados, bem como quaisquer materiais resultantes da atenção à saúde de indivíduos ou animais, suspeitos ou confirmados, no chamado “Grupo A5”. Todos estes resíduos devem ser encaminhados para tratamento por incineração.

Veja também

Implicações do descarte indevido de efluentes11/05/20 Além de crime ambiental, a ação tem consequências à saúde Resíduos e efluentes gerados pelas atividades domésticas, industriais, do agronegócio e de serviços de saúde necessitam ser tratados por processos técnicos, de forma a garantir a integridade do meio ambiente e da população. Esgoto não tratado,......
Gestão Ambiental29/03 Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD) Empreendimentos, atividades industriais ou comerciais podem gerar impacto ao meio ambiente. Para minimizar esses efeitos, empresas que precisam de licenciamento ambiental devem elaborar um Plano de Recuperação de Áreas Degradadas (PRAD) -......
Semana do Meio Ambiente: Alimentação e Nutrição09/06/17Aliando saúde e sustentabilidade Como conciliar alimentação, nutrição e meio ambiente. Este foi o objetivo da palestra do quarto dia da Semana do Meio Ambiente do Grupo Servioeste. Três acadêmicas do quinto período do curso de......

Voltar para Blog